segunda-feira, janeiro 18, 2010

Vivências de Moçambique - Galeria de Fotos

















Moçambique: uma experiência pessoal desmotivante

Dez horas de voo e 8393 Km, eis o tempo e a distância que me separavam de uma nova e prometedora experiência africana: Moçambique - um país que, até hoje, me era querido apenas através da informação e da literatura nacional e estrangeira, mas cujo desejo de pisar e cheirar sempre esteve arreigado no mais íntimo de mim. Não só devido ao meu interesse de investigadora africanista mas, principalmente, pela curiosidade que as histórias do tempo colonial – contadas, vezes sem conta, na primeira pessoa por meu pai – despertaram em mim. Há anos que as refeições em família são um misto de deleite alimentar e relógio histórico: relatos de pequenos-almoços inesquecíveis nas pastelarias Continental e Scala, convívio entre militares no Hotel Polana, tardes relaxantes nas praias do Xai Xai e Bilene… recordações felizes em tempos de guerra que, rapidamente, se auto-inscreveram na minha agenda como «locais a conhecer em 2009».
O Boeing A330 da TAP voou a 37 mil pés de altitude com cerca de 200 pessoas a bordo e um menu de fazer inveja: salada verde com requeijão, empadão de novilho biológico, mousse de chocolate com amêndoa e chá. Um verdadeiro luxo para quem está habituado a viajar para a Guiné-Bissau e países limítrofes. Mas… os mimos não terminaram por aqui: mantinha, almofada, auscultadores que permitem desfrutar de uma panóplia imensa de filmes, músicas, jogos e leituras várias. Só faltaram as pantufas… dado que as refeições são servidas em tempo e no lugar: 37J. Sorte, também, porque a cadeira à minha esquerda estava vazia… Quem podia pedir mais? Um verdadeiro oásis para quem pretendia actualizar a leitura e adiantar trabalho. “Este país não é para velhos” e “Other Voices” foram, respectivamente, o filme e o livro escolhidos para companhia. Nos intervalos, algumas leituras ligeiras (revistas) para relaxar a mente e o espírito… uma preparação genuína para o ambiente calmo e descontraído que África proporciona a qualquer europeu.
“As Rádios Comunitárias moçambicanas enquanto instrumentos de participação cívica” é a temática que motivou esta deslocação. Fontes de informação no terreno afirmam que estes instrumentos de empowerment estão em franca expansão, existindo já 77 espalhadas por todo o território nacional. Propus-me visitar algumas (rurais e urbanas) visando entrevistar personalidades das mais variadas inserções sociais (radialistas no geral, coordenadores das rádios, activistas de ONG’s, Igreja Católica, governo, núcleos de mulheres, Sindicato dos Jornalistas, Instituto da Comunicação Social, etc.). Um trabalho árduo que permitirá terminar o doutoramento e, consequentemente, estabelecer pontos comuns e de contraste com a Guiné-Bissau, PALOP pioneiro neste tipo de Órgãos de Comunicação Social.
Eram exactamente 06h:42m quando pisei, pela primeira vez, solo moçambicano. Uma sensação única e extremamente compensadora. Temperatura nos 20 graus, céu muito nublado e chuva intensa marcaram os primeiros dias de visita, cuja duração seria de 36 dias. Primeira impressão, em comparação com a restante África: O cheiro não é o mesmo! Seria este o prenúncio de uma África diferente?! A resposta não tardou a clarificar-se.
Dada a sua pequenez e ambiente acolhedor, costumo comparar Bissau às pequenas cidades do nosso Alentejo, embora a maioria da população não fale português… Em contraste, Maputo é uma cidade gigantesca, bastante urbanizada, comercialmente activa, com inúmeros resquícios da colonização portuguesa ao nível das infrastruturas (estradas, prédios, pontes, viadutos, etc.) e com uma população que utiliza de facto a língua oficial. A ruralidade, a interioridade e a paz silenciosa que tanto aprecio na Guiné-Bissau é aqui substituída por arranha-céus de 33 andares (máximo), mercados organizados e estratificados, estradas alcatroadas e um frenesim inexplicável: ruído/poluição automóvel. Salta à vista uma massiva construção/requalificação urbana, onde a presença chinesa é notória e crescente. Em Bissau, o fenómeno «obras públicas» não é sequer visível… à excepção do alcatroamento de algumas estradas.
Segunda impressão: Maputo é uma cidade inexplicavelmente suja! Embora a questão do lixo acumulado nas ruas e dos esgotos a céu aberto constituam problemas estruturais comuns à maior parte dos países africanos já visitados… a meu ver, Moçambique apresenta uma fotografia duplamente negativa a este nível: a cada segundo, pessoas (sejam elas pobres ou ricas, crianças ou adultos, desempregados ou funcionários públicos e, mesmo, titulares de pastas do Estado, africanos, chineses ou indianos) arremessam lixo para as ruas e para o mar sem qualquer hesitação e, muito menos, peso na consciência! E, pior, sem perceberem ou quererem ver as consequências nefastas de tal gesto para a saúde das gerações actuais e vindouras! Neste PALOP, vi coisas que o analfabetismo e muito menos a pobreza extrema podem explicar! Não me parece possível que nos próximos anos esta mentalidade mude! Seria precisa uma mudança comportamental de nível estrutural e transversal a toda a sociedade. A «Pérola do Índico» transformou-se, assim, numa cidade imunda onde as pessoas não têm sequer noção de que estão a contribuir diariamente para a proliferação de doenças nocivas de consequências fatais!
Terceira impressão: Maputo é uma cidade fortificada, murificada, gradeada… varandas até ao quinto e sexto andares estão completamente engradadas e decoradas com cadeados gigantes a cada junta de ligação. As portas da rua das habitações são duplas e, também elas, com 3 ou 4 cadeados. Curiosidade: existem cerca de 12 mil guardas privados “devidamente treinados”, número que representa cerca de um quarto (25%) do universo total de agentes policiais que o país tem – “pouco mais de 42 mil homens das variadas especialidades”, segundo o Jornal «O País» de 03 de Junho de 2009. Realidade que permite aos transeuntes deambular à vontade pelas ruas (vantagem inequívoca face a Bissau onde só consegui sentir-me minimamente segura ao terceiro ano de visita). Casas privadas, bancos, ministérios, embaixadas, ONG’s, colégios, escolas, igrejas, órgãos de comunicação social, mega-empresas, etc. têm guardas à porta 24 horas por dia.
Quarta impressão: As telecomunicações estão em grande expansão e as duas operadoras nacionais (Vodacom e MCEL) pintaram, literalmente, a cidade a azul e a amarelo, respectivamente. Ao contrário de Bissau, é fácil encontrar cafés/pastelarias com serviço Wireless eficaz e grátis.
Quinta impressão: Moçambique é um país onde o racismo é um fenómeno visível…. eu diria quase palpável pois senti-me um OVNI nas ruas. Os brancos têm locais específicos de encontro, p. ex: esplanada da Polana (em frente ao Liceu Josina Machel), restaurante Piripíri, etc. Na cidade de Maputo, é raro ver um branco deambulando pelas ruas…
Sexta impressão: A generalizada falta de profissionalismo, de educação, de sentido de responsabilidade, de lealdade e engajamento e de civismo. Foram imensos os casos de pessoas que, simplesmente, não apareceram a entrevistas previamente combinadas, e que nem sequer desmarcaram ou pediram desculpa ou se justificaram e nem devolvem as chamadas telefónicas… um pouco ao estilo: “és europeu, é a tua vez de sofrer e esperar…” Das cerca de 35 entrevistas realizadas e dos restantes contactos efectuados, encontrei 2/3 pessoas merecedoras da descrição de pessoa verdadeira, pura, íntegra, responsável e cumpridora dos compromissos que assumiu. Professores universitários, membros do Governo, jornalistas, directores de ONG’s, sacerdotes, etc. quase sempre faltaram ou chegaram atrasados, ficaram de entregar documentação que nunca chegou, após incontáveis pedidos de entrega, e fizeram promessas profissionais que nunca cumpriram, numa evidente falta de compromisso por parte de pessoas com responsabilidades sociais. Nem se preocupam com qualquer imagem positiva a manter… são assim entre si, aceitando como normal este tipo de comportamento tão pouco social que é agora um círculo vicioso a abranger a sociedade civil no seu todo e não apenas as camadas mais pobres!
Posso, inclusive, deixar-vos com um exemplo real, nunca experienciado na minha carreira de jornalista: Solicitei ao Instituto da Comunicação Social que me proporcionasse visitar uma Rádio Comunitária e entrevistar o coordenador e os radialistas deste OCS. O pedido foi deferido. Já no carro do ICS, apercebo-me de que um membro da Frelimo irá acompanhar-me… chegada ao local, vejo a sua presença imposta durante a realização da própria entrevista, sem um pedido prévio ao jornalista. Nunca, em África, me vi antes obrigada a conviver com este tipo de actos de pura intimidação censória!
Outro exemplo caricato: Fui literalmente proibida pelo segurança de entrar no Gabinete de Informação (Gabinfo) por estar informalmente vestida de calções, camisola de alças e chinelos. Nem sequer é um Ministério! Pergunto: O acesso aos organismos do Governo moçambicano é apenas para gente formal e cerimonialmente bem vestida?! Não estarão os moçambicanos demasiado preocupados com a imagem em vez de se debruçarem sobre assuntos de interesse do bem comum público?!
Não posso terminar o presente texto sem relatar outro episódio grotesco: O director da Rádio Comunitária Maria (que, a meu ver, de comunitária pouco ou nada tem) exigiu que lhe fossem fornecidas as perguntas antes de começar a gravar e, posteriormente, quase fui impedida de tirar fotografias! O Padre sentiu-se extremamente incomodado com a máquina fotográfica e com a entrevista em si mesma! Será porque a dita Rádio está inserida numa rede mundial e detém equipamento caríssimo e tecnicamente superior à Rádio Moçambique?! Como pode a Associação Mundial das Rádios Comunitárias (AMARC) pactuar com este tipo de situações? É esta a resposta que vou tentar obter durante a investigação que se segue… Isto só prova que a definição de “Rádio Comunitária» fornecida pela AMARC continua a ser demasiado contraditória não se percebendo, de facto, que rádios são verdadeiramente comunitárias… já que, em Moçambique, 41 Rádios financiadas e controladas pelo Estado ostentam esse mesmo título!
Em suma, apercebo-me agora da minha postura um tanto ou quanto ingénua no que concerne às possibilidades de crescimento do continente africano e mesmo relativamente à génese da pobreza. Nós, investigadores africanistas, tendemos (talvez por paternalismo) a analisar a pobreza como uma causa (das guerras, dos conflitos interétnicos, das pandemias, das catástrofes naturais, etc.) e nunca a vemos como uma consequência da actuação dos Estados africanos. A problemática do «Estado em África» deve constituir-se como um tema fundamental em 2010 “Ano Europeu de luta contra a Pobreza e a Exclusão Social”. Como é que estas relações de poder se instituíram? Fazem parte da tradição africana ou são um produto da Globalização? Questões importantes merecedores de respostas claras. Defendo que a pobreza em África tem alimentado grandes riquezas e que o Estado liquefaz-se na corrupção. E a Europa não tem pobreza? Os EUA não têm pobreza? De salientar que a União Europeia tem 80 milhões de pobres!
Hoje, não estou crente que países como Moçambique conheçam um verdadeiro crescimento económico, social e cultural a médio prazo. Se estes comportamentos e/ou atitudes fazem parte de qualquer matriz cultural, então, não auguro um futuro próspero no âmbito de um desenvolvimento sustentável… Como é possível África progredir assim? Moçambique é hoje considerado o «menino bonito da comunidade internacional», talvez porque apresenta muitos relatórios, inúmeros planos de desenvolvimento, múltiplas directrizes a seguir mas a verdade é que, no geral, é tudo uma fachada! Outrora «Cidade das Acácias», Maputo é hoje uma capital irreconhecível, tendo em conta os relatos de há 39 anos atrás. Fica, entre muitas, uma só pergunta simples: tanto dinheiro gasto em cooperação internacional e não há um único parceiro que doe 10 mil caixotes do lixo e os coloque na cidade de Maputo?! Tanto dinheiro gasto pelas ONG’s em campanhas que visam uma mudança de mentalidades (uso do preservativo, redes mosquiteiras para evitar a malária, equidade de género, contra maus tratos à mulher) e não há uma única campanha que apele à higiene pública?!
Moçambique tem, não obstante a realidade acima descrita, locais dignos de visita: o Museu de História Natural, fundado em 1913, e detentor de exemplares únicos de elefantes nas diversas fases embrionárias, a península de Catembe (paisagem magnífica sobre a cidade a partir do Hotel Gallery), as cataratas da Namacha, as salinas da Matola, os afluentes de rio na Manhiça, os mercados de arte africana espalhados pela baixa da cidade e, claro, as praias do Bilene e Xai Xai (que infelizmente não consegui visitar mas cujas fotos me chegaram através de um colega espanhol).
Durante a minha estada em Moçambique, desloquei-me à África do Sul, onde permaneci quatro dias. Passeei por Pretória (visitei o Museu de História Natural visando uma comparação real com o de Maputo, em tudo superior), Joanesburgo (senti a presença do Mundial de Futebol espelhado na construção de estádios gigantescos, painéis publicitários alusivos ao evento e bolas de futebol colossais a cada canto da cidade) e Rustenburg (uma localidade mineira - com pouco mais do que um agradável Centro Comercial - onde foliei com crianças pobres mas com um espírito multicultural e multiétnico fantástico, apesar de não falarem sequer inglês). Diferenças face a Moçambique? São muitas e dificilmente explicáveis em poucas linhas. Senti que estava em Inglaterra, nomeadamente em Londres… onde estive há três meses. A cor do alcatrão nas estradas, as fachadas dos prédios em terracota, a própria estrutura arquitectónica dos edifícios, a limpeza das ruas, a forma de estar dos sul-africanos… muito ao estilo britânico, a organização quase exemplar dos serviços fronteiriços, a simpatia dos lojistas, a eficiência dos serviços públicos, a sensação de estar quase na Europa… Apesar dos relatos de violência extrema, posso dizer-vos que, eu, branca e loira, andei horas a fio em Pretória, com uma mochila às costas, vestida à turista pé descalço e nunca fui abordada por ninguém. Eis outra diferença face a Moçambique onde, amiúde, ouvi: “Bom dia Mãe. És boa, mãe. Posso convidar-te para jantar mãe? Anda cá, mãe!”. E já perceberam que este “mãe”, não é maternal... O único susto que apanhei acabou por complementar a minha visita: desloquei-me a três Bancos para trocar meticais por rands e nada! Resposta: “Não trocamos, Moçambique não deixa sair a moeda e à África do Sul não interessa receber uma moeda cujo valor é baixo”. Já tinha poucos rands, nem para uma refeição chegava… Solução? Contactar a Embaixada de Portugal em Pretória. Assim fiz! Acabei por falar com o Primeiro Secretário, Pedro Almeida, cuja amabilidade e disponibilidade foram indescritíveis. Almoçámos numa esplanada simpática, mostrou-me algumas lojas elegantes de souvenirs, aconselhou-me alguns livros, o “Disgrace” de J. M. Coetzee, por exemplo, e convidou-me para lanchar (cerveja e chocolates sul africanos) na sua residência, uma bela mansão com piscina e jardim a perder de vista. Foi uma experiência enriquecedora a todos os níveis, e percebi, pois, por que lhe chamam a grande potência do Continente africano.