segunda-feira, abril 20, 2009

World Press Cartoon 2009 premeia México, Portugal e Cuba


Rogelio Naranjo, artista mexicano, foi o grande vencedor do World Press Cartoon 2009. A cerimónia realizou-se a 17 de Abril no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra. O português André Carrilho foi igualmente distinguido com uma caricatura do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. A organização do evento recebeu 848 trabalhos de 428 autores de 72 nacionalidades, com estreias do Afeganistão, Jordânia, Letónia, Líbia, Marrocos e Mongólia.

“In the same ship” é o título do cartoon que valeu ao experiente cartoonista mexicano, de 72 anos, o grande prémio da quinta edição do World Press Cartoon (WPC), no valor de 20 mil euros. Publicado em Setembro de 2008 no jornal El Universal, este espectacular desenho de imprensa exibe o primeiro presidente dos EUA, George Washington, tal como aparece nas notas de dólar, a afundar-se num barco juntamente com um esqueleto, representando a morte. “É um cartoon alusivo à crise. O prémio foi atribuído por unanimidade”, esclareceu o cartoonista António Antunes, director do evento e membro do júri, do qual faziam parte os cartoonistas Adam Korpac (Finlândia), Aristides Hernandez (Cuba), Steve Brodner (EUA) e a directora de arte Sophie-Anne Delhomme (França).
Ao longo da sua vasta carreira, Rogelio Naranjo ganhou vários prémios de caricatura e desenho de humor (2º prémio no WPC de 2008). O português André Carrilho venceu com uma caricatura do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, publicada no Diário de Notícias em Julho de 2008. O prémio de «desenho de humor» foi atribuído ao brasileiro Osmani Simanca, cubano naturalizado brasileiro, com o cartoon “Punk Fish”. O grande prémio do WPC resulta de uma votação entre os vencedores de três categorias: André Carrilho (Caricatura), Rogelio Naranjo (Cartoon Editorial) e Osmani Simanca (Desenho de Humor), anunciados por Ana Marques numa cerimónia ímpar, marcada pelo humor inconfundível de Maria Rueff e Michel Lauzière. Foi constituída uma banda somente para o evento, com vozes de Laura Ferreira e Paulo Ramos. A organização homenageou Raul Solnado pela carreira dedicada ao humor em português, valor esse que demonstrou em palco contando as peripécias da sua difícil ascensão e reconhecimento como actor na sociedade portuguesa.
Após o espectáculo, foi inaugurada a exposição no Sintra Museu de Arte Moderna – Colecção Berardo, com um total de 401 cartoons, criados por 294 autores de 62 nacionalidades, representando 273 jornais e revistas de todo o mundo. Estes trabalhos estarão expostos até 14 de Junho e constarão de um catálogo altamente criativo e distinto, características do Salão Internacional de desenho de imprensa.


“O cartoon é uma língua. E o milagre do World Press Cartoon é o de revelar, com enorme força, pela quinta vez consecutiva, o quanto esta língua é universal. A meus olhos, trata-se de uma alquimia superior que permite tecer com cada ser humano a comunicação que o desconhecimento das línguas dificulta. (…) o desenho entrega níveis subtis de leitura e utiliza uma gama de matizes que lhe permite exprimir problemáticas complexas, locais ou gerais, políticas, económicas, sociais”.

Sophie Anne Delhomme
Directora de Arte da revista semanal francesa Courrier International desde 1999


Lista completa dos premiados nas 3 categorias:

Cartoon editorial
1º Prémio - "In the same ship", Rogélio Naranjo (México)
2º Prémio - "Wall Street", Tom Janssen (Holanda)
3º Prémio - "Krisis Ekonomi", Toshow (Sérvia)

Caricatura
1º Prémio - "Ahmadinejad", André Carrilho (Portugal)
2º Prémio - "Sarkozy", Carbajo (Espanha)
3º Prémio - "Cortazar", Baptistão (Brasil)

Desenho de Humor
1º Prémio - "Punk Fish", Simanca (Cuba)
2º Prémio - "Sem Título", Géza Halász (Hungria)
3º Prémio - "Sem Título", de Balaban (Roménia)

quinta-feira, abril 02, 2009

Casas de Moçambique e Guiné assinam protocolo de cooperação

Enquanto os líderes mundiais discutiam, em Londres, o destino económico do Planeta… visando chegar a um plano global e consensual de recuperação e reforma económicas (tarefa difícil dado o fosso entre anglo-saxónicos e Europa), realizava-se em Lisboa o Fórum “Imigração VS Criminalidade – Políticas de Segurança”, cuja nota central foi a assinatura de um Protocolo de Cooperação entre as Casas de Moçambique e Guiné que se comprometeram a desenvolver um conjunto de acções de solidariedade e integração social. No auditório do Centro Nacional de Apoio ao Imigrante (CNAI) esperava-se um ambiente pacífico e integrador mas, ao contrário do previsto, os ânimos estiveram bastante exaltados durante toda a manhã. Assinado na presença da Alta Comissária para a Imigração e o Diálogo Intercultural, Rosário Farmhouse, o protocolo visa “incentivar e promover o estreitamento de relações sociais, culturais e humanas entre as comunidades guineense e moçambicana (…) e organizar regularmente acções de formação para a cidadania e contra a discriminação racial e social”. A responsável lembrou que os imigrantes constituem, simultaneamente, um “factor de crescimento económico e uma fonte de renovação das gerações” - sendo responsáveis por quase 10 por cento do total de nascimentos em Portugal - e deixou um alerta: “É importante que os portugueses façam um exercício de consciência: existem cerca de quatro milhões e meio de portugueses espalhados pelo mundo… urge banir fenómenos de racismo e xenofobia. A história já nos ensinou alguma coisa nesta matéria, saibamos aprender com ela! Não podemos deixar que fenómenos isolados estraguem o excelente trabalho dos 430 mil imigrantes em Portugal”, frisou empolgada. De referir que, em 2006, segundo os últimos dados disponíveis, os imigrantes contribuíram para os cofres do Estado com 420 milhões de euros líquidos, correspondentes a um total de 5,8 por cento da Segurança Social.

Cooperação bilateral: chave para o sucesso...
Enoque João, Presidente da Casa de Moçambique, enalteceu o papel da família no processo de integração social, educação cívica, regras de comportamento e transmissão de valores e lembrou que a criminalidade é um “fenómeno transversal a todos os países e a todas as sociedades”, com múltiplas origens: pobreza, exclusão social, desemprego, falta de perspectivas de vida. O responsável considera urgente abandonar a ideia das comunidades imigrantes como “receptáculos germinadores de criminosos” e, numa alusão aos mass-media, concluiu que a maneira como se trata e difunde o tema “não pode constituir um vector de intimidação e suspeição na sociedade”. Ao contrário, deve contribuir para “a projecção do esclarecimento com rigor e exactidão”. Soares Parente, Presidente da Casa da Guiné, disse tratar-se de um produto “fruto de três anos árduos de trabalho” do qual se espera notas positivas a curto/médio prazos. “As associações de imigrantes devem desempenhar um papel dinamizador no combate à criminalidade através de estratégias de fundo ao abrigo de um enquadramento legal igual para todos os cidadãos”, concluiu.

Teresa Caeiro insultada pelo público
O painel da manhã foi moderado pela deputada do PS, Sónia Sanfona, e contou com a participação de um jornalista e três deputados de partidos políticos, realidade que enfureceu e impacientou a maioria dos presentes, sendo que alguns fizeram questão de verbalizar esse mesmo descontentamento: “Quando olhei para o programa, fiquei perplexa… pensei que vinha para a Assembleia da República ouvir os programas de Governo ou para um Fórum dos Partidos Políticos. O título, pelo contrário, sugere a presença de autoridades policiais e de imigrantes para falarem dos constrangimentos da sociedade de acolhimento”, desabafou uma médica moçambicana.
Teresa Caeiro defendeu uma imigração integrada, por via do trabalho e da legalidade. “Antes de convidar alguém para jantar, é preciso saber se há lugar para todos! A isto chama-se integração com humanidade (protecção na saúde, no trabalho… com direitos de intervenção cívica e política)”. A deputada do CDS criticou fortemente a actual política de imigração, que designou por desregulada: “É um logro autêntico, é enganar deliberadamente as pessoas. Urge promover um contrato equilibrado entre direitos e deveres visando ter cidadãos de pleno direito”. A vice-presidente do partido disse acreditar na liberdade de cada ser humano na procura de uma vida melhor, com base no seu trabalho, mérito e aspirações. “Existe liberdade na medida em que existe um ambiente de pacificação social. Não pode haver assuntos tabu!”, retorquiu irritada.
Tabu, sim, pareceu o “sistema de quotas” constante na «Lei de Estrangeiros» defendido pelo CDS-PP nos últimos anos e cujo carácter xenófobo tem sido altamente criticado por Jerónimo de Sousa, Secretário-Geral do PCP. Alguns elementos do público ainda tentaram indagar junto de Teresa Caeiro sobre critérios mais flexíveis de entrada em Portugal - como forma de combater a imigração ilegal -, contudo: “duvido que tenha lido a nossa proposta na íntegra”, foi a única resposta proferida. Uma atitude arrogante, altiva e nada humilde caracterizou o discurso da ex-governadora civil de Lisboa, insultada por alguns dirigentes de associações de base que relembraram o facto do último documento da União Europeia não corroborar o recente estudo do CDS, cuja conclusão é: 40% dos crimes são cometidos por cidadãos estrangeiros.

De relembrar que os diplomas do CDS-PP visam “mais rigor” na atribuição da nacionalidade e defendem “um contrato de imigração” que compromete os imigrantes a cumprir as leis do país e a conhecer a língua portuguesa. Apetecia-me perguntar à Sra. deputada se, por motivos profissionais, fosse colocada a trabalhar em África, gostaria que a obrigassem a aprender crioulo nas suas várias extensões.
Por sua vez, o deputado Feliciano Duarte (PSD), alertou para uma mudança de perspectiva: “Outrora, a segurança constituía o único pilar essencial da imigração. Hoje, por via da globalização, surgiu um segundo pilar: a integração.” O social-democrata disse que o Estado português tem obrigação de ir ao encontro das diferenças e lembrou que a construção identitária de Portugal advém da mistura de inúmeros povos. “Nunca vamos permitir que temáticas relacionadas com a imigração constituam armas de arremesso eleitoral”, finalizou.
O clima de tensão foi minimizado aquando do momento cultural: leitura de dois poemas, um de Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa), outro de Sofia de Melo Breyner, cuja provocação foi notória: “As pessoas sensíveis não são capazes de matar galinhas mas são capazes de as comer! Que Deus os perdoe”.

“A mudança custa” Samora Machel (1932-1986)