segunda-feira, março 30, 2009

Cabo Verde e Europa unidos numa só Ópera

“Crioulo” é o nome da ópera cabo-verdiana contemporânea que, durante dois dias consecutivos (27 e 28 de Março), esgotou o auditório principal do Centro Cultural de Belém. Com inauguração marcada para as 21 horas, este espectáculo inovador e memorável começou cerca de 40 minutos após a hora prevista, resultado do atraso grotesco do Primeiro-Ministro português, José Sócrates, vaiado intensamente à chegada. Deveras inquieto com a intolerável demora, o público estava ansioso por desfrutar desta estreia europeia absoluta.
Criado em parceria pelo encenador António Tavares e pelo compositor Vasco Martins, este espectáculo – a que todos chamam «a primeira ópera de Cabo Verde» - combinou um misto de ingredientes explosivos: dança, crioulo, música clássica, morna, coleixa, valsinha, entre outros. No folheto informativo distribuído pelos presentes, pode ler-se: “A ópera Crioulo é uma peça dinâmica, onde o belo, o grotesco e o sagrado se conjugam, entre os diversos mosaicos, através do movimento. Foi concebida como uma coreografia, não sendo apenas a música a transportar o conteúdo da ópera e não se limitando a contar histórias através dos cantores, mas também pelas imagens e linguagem gestual próprias da dança que vêm complementar a música”.
A escravatura e a forma como esta marcou a história de Cabo Verde, a evolução da relação entre África e Europa e o Mar como elo de ligação «versus» separação entre estes dois continentes constituem o tema desta ópera cujo texto – escrito em língua cabo-verdiana - foi inspirado em três livros famosos: “Cabo Verde: Nascimento e Extinção de uma Sociedade Escravócrata (1460-1878)”, de António Carreira; “Cantos de Trabalho em Cabo Verde”, de Osvaldo Osório e “The Vice Roy of Ouidah”, de Bruce Chatwin.
Composta em 1994, a sua primeira versão (uma cantata com 25 minutos) intitulava-se “Lágrimas na Paraise”, uma encomenda especial da Universidade de Paris VIII (França) visando celebrar os 200 anos da abolição da escravatura. Em 2002, por altura do “Mindelo: capital lusófona da Cultura”, a obra é revista e aumentada, com a produção artística de António Tavares que sugere um novo nome: CRIOULO. Já nesta altura, 35 mil pessoas assistiram extasiadas e orgulhosas a um espectáculo sem par. Em Agosto de 2008, o compositor introduziu algumas alterações (acréscimos na música, orquestração e texto) visando criar um espectáculo musical mais curto (acautelando futuras digressões), fluido e fiel à realidade dos factos, cabendo à soprano o papel essencial: voz secreta, símbolo de esperança e guia dos caminhos a seguir. A 17 de Janeiro do corrente ano, Vasco Martins finalizou “Crioulo”, uma ópera que arrebatou os portugueses e cuja ficha artística e técnica demonstra a qualidade do evento: vozes principais de Carla Simões (soprano) e Sara Tavares (alter ego); Orquestra Cordas: quarteto Artzen (formado por quatro jovens portuguesas); Coro: Voces Caelestes e 16 bailarinos de diversas nacionalidades.
“Para além de uma obra musical que fala de um período “mal aceite” (a sistematização legal do tráfico de escravos africanos), é este o meu testemunho de homem livre, reprovando todas as formas de servidão e escravatura que por vezes, subtilmente, ainda permanecem neste mundo que tende muitas vezes derivar para a intolerância. Faço votos para que esta música induza sentimentos nobres e de esperança”, palavras do compositor.
Para mim, uma aprendiza no que à cultura africana diz respeito, tratou-se de um espectáculo esplendoroso em interpretação, rico em sonoridades, extravagante nas danças, deslumbrante na interactividade, sensual nos movimentos, audaz nos cenários (autênticas gaiolas onde os colonos eram mantidos em cativeiro como verdadeiros animais), diversificado no guarda-roupa (simples mas representativo da época), despido de tabus e, acima de tudo, saudável no ambiente que propicia (paz e harmonia entre culturas diferentes mas entre seres iguais: brancos e pretos). Capaz de surpreender e emocionar, capaz de fazer pensar e mudar pontos de vista, este espectáculo termina com os bailarinos praticamente nus… representando um renascer para a vida, após conquistada a liberdade.
De referir que diversos contentores marítimos com a palavra «CRIOULO» foram distribuídos pela cidade de Lisboa - a começar pela entrada do Centro Cultural de Belém – como símbolo de comércio, de globalização, de transporte de mercadorias e também, infelizmente, de pessoas, não só no passado como na actualidade. Uma iniciativa que visou promover a Ópera Crioulo, um espectáculo sobre a afirmação da identidade cabo-verdiana e seu respectivo lugar no mundo, integrado no Ano Europeu da Criatividade e Inovação (2009).

Sim nô ta livre sim
Ot Lua tem pa mostrá camin
Ser um oraçon capaz de dá sentid
A esse liberdad

sábado, março 21, 2009

“Este livro é um hino à bravura da mulher guineense”

“GUINÉ, SABURA QUE DÓI” é o título do mais recente livro de Tony Tcheka - consagrado poeta e jornalista guineense -, cuja apresentação teve lugar no dia 20 de Março, às 18:30, no Ébano Clube de Lusofonia, em Lisboa. Um verdadeiro “hino à mulher guineense pela sua bravura, empenho, carácter e dedicação à nossa terra – Guiné de todos nós”, foi assim que este expoente máximo da literatura nacional caracterizou a sua última obra. No Poefácio pode ler-se: “(…) é uma verdadeira epopeia do Homem-Guiné na sua luta para não aceitar a conveniência da indiferença. É a alma sofrida do poeta posta a nu, num deslizar ligeiro da sua pluma, tão leve, tão leve que não deixa ao leitor a sensação de ter lido, mas sim de ter sonhado… É uma poesia que comove pela sua beleza ímpar, em que a elegância se impregna de subtilidade e o eruditismo de simplicidade (…)”, afirma a escritora e poeta guineense Filomena Embaló.
Cinco poemas em crioulo, 28 em português… uma coabitação poética que se traduz num aviso àqueles que fazem mau uso do poder, num espelhar da difícil realidade guineense, numa indignação perante os desmandos e injustiças em que o seu país se está a afundar, num alerta para o duro estágio de adaptação do emigrante, em suma: um brado encorajador àqueles que sofrem fenómenos de subjugação, dominação e deslocamento. Uma amálgama de sentimentos (amor pela terra, amargura, saudade, ternura, nostalgia) expostos nalgumas frases-chave: “Não há piloto no pontão”; “A Bolanha está em quarto minguante”; “Fronteiras farpadas impostas por patriarcas ilusionistas”; “Engravidamos em relações de ódio, sublimamos partos adiados”.
Uma edição da União Nacional dos Escritores e Artistas Santomenses (UNEAS), co-patrocinada pelo Ministério da Cultura e pela Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas, catalogada com o número 48 da colecção «Canto do Ossobó» e cuja capa de Diamantino Monteiro (pintor guineense) impressionou os presentes.
A apresentação da obra coube a Fernanda Cardoso, da UNEAS, para quem a obra representa um “grito contido, saído de mil ais, rica em sonoridades e metáforas (tão próprias da cultura guineense), produzida ao sabor da cadência das batidas do coração do poeta”. Um “canto à esperança” cujo título paradoxal e intrigante remete claramente para uma terra onde reina o marasmo e o desgoverno. Tony Tcheka, um poeta de olhar vigilante, com uma postura participativa, sensibilizada e sensibilizadora mostra a sua ira perante uma Guiné-Bissau alvo do neo e auto-colonialismo.
O evento realizou-se no Espaço Ébano - um projecto de Eldmir Faroa que pretende conjugar a música, a dança, a literatura, as artes plásticas e a gastronomia africanas -, num ambiente descontraído e intimista, que contou com a presença de inúmeras figuras ilustres da elite guineense (destaca-se Tcherno Djalo, ex-Ministro da Educação da Guiné-Bissau), e cuja animação ficou a cargo de três cantores de renome: Ineida Marta (com arranjos de Juca Delgado - um dos mais importantes produtores de música africana em Portugal), Micas Cabral e Patche di Rima (nova revelação do rap guineense). A cantora guineense presenteou os ouvintes com “MinDJer Doce Mel” e, ao cair do pano, um dueto cantado e aplaudido por todos: “Os meninos à volta da fogueira (…) Vão saber o que custou a liberdade”.

Eis um cheirinho duplo desta poesia que nos enche o coração...

terça-feira, março 17, 2009

ARTIGO DE OPINIÃO

Carlos Gomes Júnior ou Kumba Ialá?

Eis a pergunta-chave que a maioria dos estudiosos e entusiastas africanistas colocam, hoje, e cuja reposta será dada num prazo máximo de 60 dias, período previsto na Constituição para a realização de eleições presidenciais na Guiné-Bissau. No entanto, mesmo antes de se formalizarem quaisquer candidaturas, é clara a escassa opção de escolha dos guineenses – a meu ver, reduzida a duas figuras já conhecidas da esfera política – em virtude da proeminência política dada por exercícios dirigentes anteriores e pela notória ausência de quadros e, consequentemente, de massa crítica. No fundo, um cenário em tudo idêntico à realidade portuguesa (com as devidas ressalvas), onde PS e PSD constituem peças aparentemente eternas de um puzzle político-partidário labiríntico, do qual os portugueses tentam, exasperadamente, sair. Conquanto, sem sucesso! Portugueses e guineenses partilham, não só, um passado histórico – por via da colonização – mas também um presente, caracterizado pela imediata ausência de opções de escolha reais, ou seja, figuras novas e credíveis a quem entregar o destino de ambos os países. Já dizia Eça de Queiroz "Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão".
Na posse da notícia sobre a morte dos dois homens mais proeminentes da sociedade guineense, confesso não ter ficado minimamente surpreendida com os factos difundidos pelos mass-media nacionais e internacionais, cuja azáfama e espanto não se compreende. O duplo assassinato do Presidente “Nino” Vieira (que governou durante 23 anos) e do Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Tagmé Na Waié, constitui um facto desprovido de qualquer novidade se tivermos em conta que este pequeno país da África Ocidental sofre de instabilidade crónica, isto é: tem um vasto histórico de golpes e motins desde que se tornou independente de Portugal, em 1974. Note-se: há mais de uma década que nenhum Presidente eleito termina o seu mandato. Assim sendo, a morte destas figuras apenas representa mais uma faceta da regra e não a excepção!
Nos últimos anos, este PALOP – situado entre o trópico de Câncer e a linha do Equador - tornou-se uma rota privilegiada de trânsito de tráfico de drogas da América Latina para a Europa, contribuindo para assim enfraquecer as já fragilizadas instituições estatais. Analistas internacionais profetizam a ideia do Narcotráfico como a "principal ameaça à segurança interna", deixando no ar a possibilidade destas mortes estarem intrinsecamente ligadas ao narcotráfico colombiano. Não concordo. Admito apenas que o narcotráfico tenha contribuído para exacerbar tensões ou, pelo contrário, para manter a paz periclitante desta jovem democracia. Para mim, a morte de Nino Vieira foi um acto de vingança e não se tratou de um Golpe de Estado derivado de tráfico de influências. Aliás, Tagmé Na Waié havia dito que os seus destinos teriam um desfecho comum… e assim foi! Diferendos pessoais e tribais estavam na origem da rivalidade: Na Waié era da tribo balanta (predominante no exército) e Vieira pertencia à tribo papel. Aliás, o único argumento a favor do narcotráfico como móbil dos assassinatos reside na alegada distribuição (dias antes dos atentados) de um panfleto que refere uma dívida de 48 milhões de dólares, colocando Nino Vieira e Na Waié no topo de uma lista de personalidades com a cabeça a prémio. Se de outro PALOP se tratasse, ainda poderiam colocar-se em hipótese outras premissas-base… Contudo, e analisando a cronologia política deste Estado, é pouco provável que a droga esteja no epicentro destes acontecimentos.
É do conhecimento público que as Forças Armadas detêm, desde sempre, o poder efectivo e que actuam em função dos seus próprios interesses. Não partilho do optimismo dos especialistas Carlos Cardoso e Carlos Sangreman Proença quanto às mortes destes dois antigos combatentes poderem trazer algo de novo. Nesta matéria, concordo plenamente com a posição assumida pela CPLP quando afirma que o único caminho que poderá levar à paz/prosperidade daquele país lusófono é a introdução de reformas sérias e estruturantes nas áreas da defesa e segurança. Concordo, sim, com o chefe dos imãs da Guiné-Bissau, Mamadu Cissé: “os guineenses deviam aproveitar a morte destas duas figuras para uma reflexão profunda sobre os valores do perdão, tolerância, unidade e fraternidade entre os governantes e os governados”. De referir que na Guiné-Bissau, mais de 45 por cento da população é muçulmana.
Infelizmente um país diferente que, por razões pouco evidentes, parece caminhar na senda da instabilidade, intranquilidade, insegurança, desesperança e, a cada dia que passa, mais próximo do abismo. Quem quer e quem olha por aquela gente? Grupos de interesses manifestam-se, guerreiam-se, matam-se… o povo mártir, cada dia pior que o anterior, e a desesperança cada dia maior que na véspera.
Não esquecendo a temática da minha Tese de Doutoramento: “As Rádios Comunitárias como instrumentos de participação cívica”, importa alertar para o facto dos militares guineenses terem mandado encerrar a Rádio privada Bombolom-FM, alegando questões de segurança dos próprios jornalistas. E se esta é a triste realidade dos sectores público e privado (cujas licenças de emissão existem e mesmo assim vêem as suas portas encerradas em situações de ameaça para o poder político), qual será o futuro das rádios comunitárias (voz dos sem voz) cujas licenças de emissão são, na maioria dos casos, inexistentes dado o vazio legislativo sobre esta matéria? Para ser sincera, esta é a questão que mais me preocupa neste país: a falta de democracia e de liberdade de expressão. E porque a Transparência é um processo, cabe aos jornalistas da Guiné-Bissau lutarem por uma imprensa independente, reforçando a participação democrática e criando plataformas de resolução dos problemas dentro das próprias comunidades, ou seja, criando fóruns de discussão locais, isto é: rádios comunitárias. Actualmente, existem mais 30 espalhadas por todo o território nacional e é ao microfone destes media de proximidade que as populações, normalmente analfabetas, exprimem aquilo que sabem, aquilo que têm e aquilo que podem oferecer aos outros. Em momentos de crise idênticos, o poder político-militar interferiu sempre na esfera da comunicação, encerrando órgãos de comunicação social, detendo e espancando jornalistas, proibindo a difusão de determinadas notícias, colocando censores nas redacções, etc. Não me parece que, quer com Kumba Ialá quer com Carlos Gomes Júnior (os quais entrevistei pessoalmente em 2004 e 2007, respectivamente) a realidade precária do jornalismo se altere. Pelo contrário, os jornalistas serão sempre reféns da classe política enquanto não houver uma prática de separação clara e definitiva dos poderes político e militar e, consequentemente, a instauração de um Estado de direito por excelência. Será esta a última oportunidade para a Guiné-Bissau alcançar a paz através de um desenvolvimento sustentável? Eis uma pergunta para a qual só Deus terá a resposta.

"Remar contra a maré é difícil mas enrijece" (Goëthe)





quarta-feira, março 11, 2009

“Em Portugal nunca houve um investimento sério em política de língua”

A exposição PANOS D’OBRA - uma homenagem a Amílcar Cabral -, autoria da pintora guineense Manuela Jardim, deu o mote para o debate “Literatura, Independência e Acordo Ortográfico” que juntou hoje, no auditório da Fundação Mário Soares, os especialistas Inocência Mata, Julião Soares Sousa e Olga Iglésias, cujo objectivo foi relembrar o primeiro grupo de intelectuais organizado que ousaram sonhar com uma sociedade justa, livre e fraterna em tempos de colonização

Em Julho de 1972, na UNESCO (Paris) - numa reunião de Peritos sobre as noções de raça, identidade e dignidade - foi lida a versão francesa de um texto de Amílcar Cabral que, já naquela época, remetia para a «importância da cultura na luta pela Independência»: “A luta de libertação, que é a expressão mais complexa do vigor cultural do povo, da sua identidade e da sua dignidade, enriquece a cultura e abre-lhe novas perspectivas de desenvolvimento. As manifestações culturais adquirem novo contexto e novas formas, para serem um instrumento poderoso de informação e formação política, não só na luta pela independência mas também na batalha maior pelo progresso”. Um pequeno excerto que testemunha a relevância da exposição da artista plástica e professora Manuela Jardim para quem “O pano d’obra tem uma linguagem própria cujo conteúdo comunica, confiando-nos as emoções da sua existência histórica, num testemunho vivo, que narra, que defende, que acusa – uma vivência, que fala para lá das diferenças”. Importa referir que do arquivo de Amílcar Cabral constam inúmeros pequenos desenhos de circunstância - quase sempre escrevinhados entre apontamentos de reuniões – que representam panos d’obra que ele próprio usou.

A geração que ditou a história…
Foi exactamente neste contexto que Olga Iglésias, professora de História na Universidade Lusófona de Lisboa, inaugurou o debate perguntando: “quem sonhou no passado esta independência?” A resposta não se fez esperar: “A «Geração de Cabral». Desse grupo faziam parte os poetas santomenses Francisco José Tenreiro e Alda Espírito Santo, os angolanos Agostinho Neto, Mário Pinto de Andrade, Lúcio Lara, Humberto Machado, António Domingues, Alda Lara, a poetisa moçambicana Noémia de Sousa e os seus compatriotas José Craveirinha, Nelson Saúte, Marcelino dos Santos e o guineense Amílcar Cabral. Apesar de vigiados pela PIDE… estes eram, de facto, os frequentadores dos salões literários da Tia Andreza (no nº37 da rua Actor Vale, Lisboa)”. E apressou-se a perguntar: “Mas… quem foi a primeira voz desta causa?” Rui de Noronha, moçambicano, “o poeta-cronista da «nossa causa», como era conhecido” foi o nome apresentado pela investigadora. Jovem poeta e prosador que integrou a redacção do jornal africano “O Bravo”, em finais dos anos 20, e cujos conteúdos evocam a mulher, o amor de Deus e dos homens, a miséria dos explorados, a dureza dos trabalhadores e a riqueza da cultura africana. “Nasceu a 28 Outubro de 1909, em Maputo. Era filho do goês José Salvador Lopes das Neves Noronha (escriturário/contabilista de uma agência de recrutamento de mão-de-obra para as minas da África do Sul) e de Lena Sofia (1ª mulher), natural da Zululândia”, esclareceu a académica. Aluno inteligente que se destacou como auto-didacta no campo musical (violino), aprendendo através de livros sem mestre. Publicou o seu primeiro conto “O Canário” em 1926, seguindo-se um ensaio sobre a escravatura, em 1935. Uma obra considerada por muitos como ensaísta, filosófica e humanista, caracterizada pela utilização de binómios: bem VS mal; Deus VS Homem; Vida VS Morte e de inúmeros conceitos-chave da existência humana: EU, VERDADE, RAZÃO. Membro da Acção Cultural dos Novos (dentro da Associação Africana) e detentor de uma escrita interventiva, jornalística e polémica sobre a defesa dos pobres, dos indígenas, dos camponeses, dos mineiros e dos carregadores locais, Rui de Noronha dedicava-se, sobretudo, à crítica social (sobretudo à administração colonial e às mulatas que procuravam casar com homens brancos). “Ele acreditava que era possível a elevação do Homem moçambicano… um nativismo romântico com indícios de revolta (não despoletada), uma oposição moderada aos desmandos da administração colonial”, concluiu após a leitura emocionada de alguns poemas.
A década de 50 ficou, sem dúvida, marcada por um movimento associativo, cujas iniciativas contra o regime colonial foram conduzidas por uma pequena burguesia inteligente, a elite da altura. “Uma luta que começou com uma esferográfica e acabou num combate com armas na mão. Estes núcleos foram fundamentais para o desenvolvimento de uma consciência crítica e para o desenvolvimento de opções que permitissem uma independência clara através de uma luta armada”, interveio o moderador António Loja Neves, jornalista do Expresso.

Amílcar Cabral: líder africano de grande prestígio…
Por sua vez, Julião Soares de Sousa, historiador da Universidade de Coimbra, deu continuidade a esta linha de pensamento com o tema: «Poesia e Emancipação dos Povos». Falou do aparecimento dos nacionalismos e respectivas estruturas organizativas e do pensamento de Amílcar Cabral, uma figura transversal nas nossas histórias do século XX. “A escrita constitui um dos elementos que está, indiscutivelmente, ligado aos processos de consciencialização dos povos… para isso terá contribuído o ambiente dinâmico – do ponto de vista intelectual, cultural e literário - do Mindelo (corrente modernista)”, afirmou convicto.
Em 1952, em “Apontamentos sobre a poesia cabo-verdiana”, Cabral escreve: “a evolução da poesia cabo-verdiana não deve parar, ela deve transcender a divinação e a esperança. A insularidade total e a seca não são suficientes para justificar uma estagnação perpétua. As mensagens da claridade e da certeza devem ser transcendidas. O sonho da ilusão, o desejo de querer partir não pode ser eternizado. O sonho deve ser outro”. Um texto que espelha a real preocupação do autor com a crise económico-social que afectava o arquipélago (20 mil mortos entre 1940-1942). A fome, a miséria, a emigração e o fenómeno da erosão constituíam, assim, os temas de eleição deste ícone da luta pela independência para quem a poesia e a literatura deviam colocar-se ao serviço da libertação do homem cabo-verdiano. “Pensa-se que o drama das ilhas terá estado na base da sua especialização em agronomia e terá constituído o primeiro fundamento da revolta da trajectória intelectual e política do jovem Amílcar. Contudo, nessa altura, este sentimento de revolta não contemplava ainda a edificação de uma Pátria mas sim a construção de uma sociedade igualitária”, esclareceu. Só em finais da década 40, com o Movimento da Negritude, é que Cabral começa a ter uma perspectiva clara da independência de Cabo Verde, uma consciência de revolta contra a opressão colonial. Em 1943, outro acontecimento escandaliza o mais esclarecido dirigente da sua geração: o desabamento do muro da resistência (cidade da Praia) que provocou a morte de 300 cabo-verdianos indigentes. Indignado com as notícias da imprensa portuguesa e com a breve nota que o ministério das Colónias produziu, escreve “Naus sem rumo”, um poema que apela à remoção dos “grãos de areia”, ou seja, dos poucos brancos que lá se encontravam. Nos anos 50, a literatura anti-colonial começa a dar os primeiros passos e, em 1952, o poeta Larbac (anagrama de Cabral) chega a Bissau com o objectivo de consciencializar as massas. A par do trabalho político, Cabral encarregava-se da planificação e execução do recenseamento agrícola da Guiné. “Em 1962 desencadeia-se a luta armada contra o Estado português. Em 1973, a guerra de libertação nacional encaminha-se para a vitória. Sékou Touré, Presidente da Guiné-Conacri, está em perda de influência desde 1958… em contraste com Amílcar Cabral que se evidencia na cena africana e internacional, reunindo apoios que vão da China e dos regimes comunistas, aos países nórdicos. Em 1973, Cabral é assassinado em Conacri, traído pelos companheiros de luta numa patética tentativa de conservar o poder”, concluiu dando a palavra ao moderador da mesa.

Alda Espírito Santo: a última representante viva desta geração…
Por fim, Inocência Mata, professora da Faculdade de Letras, encantou os presentes com a história da santomense Alda Espírito Santo - última representante (mulher) viva da «geração de Cabral» que, ainda hoje, aos 83 anos, promove concursos literários e tenta revitalizar os passos tradicionais (presépios feitos com material local, característicos dos anos 20/30), patrocinados pela Missão francesa há já 12 anos. “Integrava as actividades desenvolvidas por este grupo de intelectuais, cujas reuniões decorriam em três pólos distintos: Centro de Estudos Africanos (Rua Actor Vale, nº 37); Clube Marítimo (Graça) e Casa dos Estudantes do Império (Duque D’Ávila). O grupo teve sessões regulares até 11 de Abril de 1954”, alertou a académica identificando as três fases que caracterizam a vida desta poetiza de renome: “Cidadã conformada, Poetiza insubordinada e Mulher política fora do «Cânone» (roubo)”. Figura tutelar na defesa dos valores culturais santomenses, a poetiza foi extremamente perseguida, vigiada e chegou mesmo a publicar uma obra “que lhe saiu cara”: Daughters of Africa, uma antologia das mulheres de África, com 2000 páginas, uma edição “vintage” publicada nos EUA.
E foi esta a fotografia real de uma geração peculiar e fundamental naqueles tempos de mudança que reescreveu e/ou redesenhou a história de forma decisiva para a emancipação dos povos.

Acordo Ortográfico: que consequências para o património linguístico português?
Coube ao moderador colocar a pergunta de partida supracitada. O debate, esse, assemelhou-se a um jogo de ping-pong entre a ex-Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima - contra o Acordo Ortográfico (AO) - e Roberto Moreno, da Fundação Geolíngua - detentor de uma proposta inovadora para divulgar a língua portuguesa e revolucionar a economia de Portugal: os “Estados Unidos Iberófonos ou Tratado de Tordesilhas II” -. O público participou em massa deixando algumas achegas importantes: cerca de 200 milhões de pessoas falam português, sendo esta a quarta língua mais falada no mundo; das cinco pessoas que falam português no mundo, quatro são brasileiras; a expansão demográfica do Brasil e dos PALOP certifica a importância do Acordo Ortográfico; Urge elaborar uma política de língua comum e exigir de cada núcleo falante do português uma participação activa e efectiva.
“Em Portugal, nunca houve um investimento sério em Política de Língua. Sou, inevitavelmente, contra o AO pois trata-se de uma questão política e cultural. Do ponto de vista linguístico é uma verdadeira aberração. Em vez de criar a tendência para uma ortografia comum, vai propiciar a existência de várias grafias dentro do mesmo espaço lusófono. Só teve em conta duas variantes: português europeu e português do Brasil. Não houve um estudo das variantes do português nos PALOP. Urge ouvir os linguistas que, desde 1990, dizem tratar-se de um disparate.”, concluíu a ex-Ministra. Roberto Moreno, professor de Marketing desde 1974, contrapôs com a problemática da sua Tese de Doutoramento: “Das 6800 línguas e dialectos existentes no mundo, qual será a que mais condições reúne para se constituir como a língua da Globalização? Visto que o esperanto - uma inter-língua que fez, em 2007, 120 anos - não deu certo…” O investigador defende o português e afirma existirem cinco critérios para medir a importância de uma língua: quantitativo, qualitativo, geopolítico, geoeconómico e poder/capacidade de entender outra língua. “Porque não temos dificuldade em entender o espanhol, os 240 milhões de pessoas que falam português, passam para 700 milhões de pessoas em 30 países: 8 de língua portuguesa, 21 de língua espanhola e os EUA (onde o espanhol está a ganhar a guerra da evolução linguística). Se adicionarmos o italiano, são 800 milhões. Das cinco línguas latinas, o português é o motor deste comboio linguístico”, concluiu.
A resposta da ex-ministra não se fez esperar: “A boa saúde de uma língua decorre do facto de ser falada. O português expande-se com uma política de internacionalização da língua que passe pelos conteúdos. Urge veicular cultura mas não através de um acordo ortográfico! Existem 14/15 variantes do inglês no espaço anglo-saxónico e nunca foi necessário um acordo ortográfico para as pessoas se entenderem”.
Numa tentativa desesperada para promover o bilinguismo e converter Isabel Pires de Lima, Moreno lançou as últimas achas para a fogueira: “Há dois meses, o Presidente Lula ganhou o prémio Dom Quixote, criado pela Espanha, por colocar o Espanhol como segunda língua oficial do Brasil. O acordo linguístico do Mercosul (1992), entre Brasil, Uruguai, Paraguai, Argentina, Bolívia, Chile (observador) e Venezuela, é muito claro relativamente à política linguística: duas línguas só! O Brasil colocou o espanhol como segunda língua. Em contrapartida, todos os países vizinhos de Espanha e membros do Mercosul têm que colocar o português!”. O objectivo deste professor brasileiro é, pois, ressuscitar a mais antiga comunidade linguística do mundo, iniciada em 1214 (com a separação da língua portuguesa do galego, sua progenitora) e fortalecida com o Tratado de Tordesilhas de 1494: a CPLPE – Comunidade de Países de Língua Portuguesa e Espanhola que, agora, adopta a nova designação de EUI – Estado Unidos Iberófonos (união de 8 fonias: Anglofonia, Brasilfonia, Caboverdefonia, Guinefonia, Lusofonia, Moçambiquefonia, São Tomensefonia, Timorfonia, mais as fonias das línguas da Espanha).
Longe desta polémica está o escritor moçambicano Mia Couto, responsável por todo o dinamismo que a língua portuguesa tem em Moçambique, e cuja opinião tem sido divulgada nos mass-media nacionais: “o drama não reside no AO mas sim na distribuição dos livros, cuja dinâmica tem que ser repensada. Este é o drama de quem escreve! Urge agilizar processos de distribuição e circulação das obras para que todos tenham acesso à leitura… A língua vai naturalmente explodir, crescer, evoluir de acordo com a natureza e com base nas experiências das mulheres, dos homens e das crianças que compõem cada geração e cada país. Isso é riqueza!”.
Um debate aceso, enriquecedor e multidisciplinar que permitiu conhecer, compreender e analisar os tempos de ruptura, no que têm de dinâmico e de mudança em relação a épocas anteriores, nomeadamente o quadro do movimento associativo que permitiu a independência dos PALOP face ao regime colonial.