segunda-feira, agosto 21, 2006

Martim Moniz: em busca de uma identidade perdida

Ai, Mouraria…

Com mais de 850 anos, o Martim Moniz enfrenta hoje um controverso plano de requalificação “Lisboa 2012 – Visão Estratégica” que visa reabilitar, requalificar e revitalizar os bairros de Lisboa, transformando-os em locais dinâmicos, capazes de fixar e atrair população. Uma visita guiada permitiu identificar problemas persistentes, apurar eixos de desenvolvimento e procurar algumas soluções viáveis
Patricia Mota Paula

Desde sempre considerada zona complexa, o Martim Moniz, ainda há 50 anos, era local de comércio informal e de acesso às casas de prostituição que seguiam até ao Intendente e ilegalizadas nos primeiros anos de 1960. Ao contrário de outras zonas da cidade, não está desertificado e é, hoje, fundamentalmente zona de imigração e de pequeno comércio étnico. Pela sua centralidade é também porta de acesso a alguma pequena criminalidade e ao tráfico de droga. A ligação à Praça da Figueira e ao Rossio confere-lhe o estatuto de ponto de encontro das comunidades africanas e não só… Nos últimos cinco anos, o panorama dos centros comerciais do Martim Moniz e do seu bairro da Mouraria alterou-se radicalmente. “Fomos literalmente invadidos por imigrantes, oriundos da China e do Bangladesh, que se juntaram aos moradores tradicionais”, afirma Marcelino Figueiredo, presidente da Junta de Freguesia do Socorro, para quem esta realidade gera desertificação, por desencontro cultural.

Para turista ver

“Nas últimas três décadas assistimos a um ininterrupto chorrilho de promessas, a uma constante destruição de obra feita, obras inacabadas e ruína de vários edifícios. A lógica dos lóbis económicos tem sido constante, remetendo para segundo plano o verdadeiro sentido de serviço público”, diz Maria José Oliveira, 36 anos, contabilista e moradora desde 2002, tentando explicar a “revolução” em curso por via do “Plano Estratégico para Reabilitação do Centro Histórico da Capital”. Numa época em que a UNESCO acaba de reconhecer a diversidade cultural como vertente obrigatória de qualquer esforço de integração multicultural e em que a União Europeia se prepara para celebrar 2008 como Ano do Diálogo Intercultural, impõe-se a pergunta: requalificar o quê, como e porquê? Num documento intitulado “Os Quatro Eixos de Desenvolvimento da Visão”, da Câmara Municipal de Lisboa (CML), encontramos como prioridades: “reabilitação física do património edificado, preservação da identidade histórica, reforço dos equipamentos e qualificação dos espaços públicos, melhoria da mobilidade e do ambiente urbano, por forma a aumentar a qualidade de vida, dando prioridade ao peão, e promover o rejuvenescimento dos bairros e a coesão social”. Uma luz ao fundo do túnel num bairro tão central e tão marginal(izado).

Ver para crer…

Questionado sobre a pertinência destas premissas, o arquitecto Luiz Sá Pereira, da Unidade de Projecto da Mouraria, revela preocupações no que concerne aos espaços exteriores na sua relação com a actividade comercial, na área envolvente do Martim Moniz: “Nunca poderemos competir em igualdade com áreas comerciais recentes, concebidas de raiz para os actuais padrões de conforto e de estilo de vida, onde não existem restrições de espaço, nem testemunhos tão representativos do nosso passado. Como ficou sobejamente provado no mau resultado das obras de renovação realizadas na década de 40, as intervenções sob pretexto de melhorias funcionais não podem sacrificar tais testemunhos. Resultam locais mutilados incompreensíveis, ou esventrados e sem alma”.

Problemas «versus» Soluções

Envelhecimento da população e do património, crescente dificuldade de circulação, solidão e pobreza entre os idosos, guetização e marginalização dos imigrantes que ali vivem e trabalham. Eis alguns problemas que, segundo os moradores, existiam há dez anos, existem hoje e sempre existirão. Soluções? Montra de multiculturalismo, o Martim Moniz tem sido alvo de mudanças empurradas de cima para baixo, sem envolvimento de base, que acabam inevitavelmente em operações cosméticas. Para José Mapril, professor no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e coordenador do projecto “Banglatown: Imigrantes, Transnacionalidade e Poder”, urge “analisar a rede de transportes envolvente, ouvir os residentes locais (antigos ou recém-chegados), conhecer a fundo a diversidade étnico-cultural existente, promover o comércio local asiático e africano e incentivar outras actividades comerciais, nomeadamente de artigos regionais e artesanais”. Isolado de soluções integradas, o Martim Moniz vai recebendo respostas pontuais. História secular de mutações de rosto e das suas gentes. Em aberto, fica a inclusão social e o contributo cultural e económico para o engrandecimento de Lisboa.