quarta-feira, novembro 23, 2005

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OPIS aposta na Lusofonia através da Sociedade da Informação

I Entrevista com Sandra Romão I

“Iremos apostar na criação de um Centro de Investigação e Formação Profissional para Jornalistas (CIFPJ)”

Aos 34 anos de idade, Sandra Romão é presidente da direcção da Opis, uma Organização Não Governamental (ONG) portuguesa, sedeada em Faro, e a trabalhar em Moçambique há pouco mais de um ano na área da educação e formação profissional. Uma conversa sobre alguns dos aspectos relacionados com o futuro desta jovem ONGD, conduziu-nos a uma radiografia do panorama educacional moçambicano
I Texto por Patrícia Mota Paula I I Fotos por Sandra S. Santos I

Actualmente em frequência do 4º Curso de Mestrado em Desenvolvimento, Diversidades Locais e Desafios Mundiais: Análise e Gestão, no ISCTE, Sandra Romão tem vindo a desenvolver diversas actividades no domínio da cooperação e desenvolvimento, em Moçambique, desde 1998. Actualmente desempenha funções na direcção da Opis – Associação para a Cooperação e Desenvolvimento -, cujo objecto visa apoiar acções de intercâmbio ao nível da cultura, da informação, da formação e da educação para o desenvolvimento em Portugal e Países de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). A sua vasta experiência no terreno permite-lhe constatar a fragilidade das pequenas ONG`s que “embora confrontadas com inúmeras dificuldades materiais, humanas e financeiras, continuam a constituir actores imprescindíveis no processo de emancipação dos Países em Vias de Desenvolvimento (PVD) na era da Globalização”.

Experiência Profissional…
Licenciei-me, em 1996, em Relações Internacionais via Diplomática, fui convidada a integrar uma equipa na ANJE (Associação Nacional de Jovens Empresários), núcleo do Algarve, para a Coordenação do projecto Europa no horizonte 2000 – “A Afirmação das Regiões como Factor de Coesão e Desenvolvimento Integrado”, (Projecto co-financiado pela Comissão Europeia) e respectiva organização da conferência internacional sobre a mesma temática. Em 1999, integrei a Coordenação do Projecto “Road Show”, para o Mercado Interno Alargado Portugal/Espanha, no âmbito do Departamento de Promoção da RTA (Região de Turismo do Algarve), tendo assumido em simultâneo a Coordenação e Implementação do Bureau de Congressos e Incentivos na mesma Entidade. Prestei também Assessoria ao Projecto de Desenvolvimento Regional, em parceria com o Espaço Lusófono, no âmbito da Associação JADRE (Jovens associados para o desenvolvimento regional) e finalmente Membro Fundador e Presidente da Direcção da ONGD OPIS, função da qual muito me orgulho.


O que é a Opis? Como surgiu a ideia da sua criação?

A OPIS é uma organização não governamental sem fins lucrativos que visa a cooperação e desenvolvimento educacional e social. Criada em 2004, esta ONGD é uma consequência de um projecto pensado e elaborado em Portugal, que se inicia com um grupo de docentes, em 1993, que se reúne na perspectiva de criação de um centro de apoio escolar multidisciplinar - englobando o ensino básico, médio e superior - destinado aos estudantes com dificuldades no aproveitamento escolar. O nosso objectivo é fomentar processos de educação para o desenvolvimento, promovendo a consciencialização e empenhamento social, de modo a reduzir os desequilíbrios Norte/Sul, estimulando o diálogo de culturas, apoiando e promovendo o intercâmbio nomeadamente entre as instituições de ensino.

LOGOTIPO da Opis: significado das cores, dos símbolos, das formas?
Porque o objecto social é a «educação», escolhemos um logótipo atractivo, dinâmico, cheio de cor, visto o conhecimento não ser algo aborrecido ou cinzento. Em latim, Opis significa “ajuda”, daí o coração que simboliza amor, fraternidade, solidariedade e o Sol que exprime a luz do conhecimento que ilumina, ou deveria iluminar, todos os seres humanos do Planeta, sem excepção.

Objectivos específicos no terreno?
A OPIS tem por objectivo reforçar a capacidade de acção das estruturas locais com o objectivo de as tornar autónomas, levando a cabo campanhas de sensibilização públicas sobre os grandes temas Norte/Sul, de que são exemplo: a educação, o ambiente, o comércio mundial, os direitos humanos, a emancipação da mulher, o desenvolvimento, a exclusão social, etc. Em Portugal, estamos sedeados no Algarve - Urbanização Santo António do Alto, Rua C, nº8, Faro / Telefone: 289.80 65 42 75 66 -e, em Moçambique, na Av. Kim IL Sung, nº96, Maputo - Tel: 00258 82 21 48.

Nº de Funcionários em Portugal e em Moçambique?
O número de colaboradores da OPIS é variável em número e por categorias. Trabalhamos sobretudo com voluntários - pessoal não remunerado que dedica algumas horas semanais a determinados projectos - contudo, também temos colaboradores contratados - que exercem actividades remuneradas – e cooperantes, pessoal qualificado que é destacado para o país onde se desenvolve determinado projecto, de forma a poder implementá-lo e dirigi-lo.

Necessidades ao nível do sector educacional moçambicano?
De acordo com os dados estatísticos fornecidos pelo instituto Nacional de Estatística moçambicano, poder-se-á afirmar que os níveis educacionais atingidos são, na verdade, muito baixos: a maior parte da população da Província de Maputo, 60.1%, não tem nenhum nível educacional concluído. Esta percentagem é de 49.7% entre os homens e de 68.7% entre as mulheres. Consistente com os níveis e tendências do analfabetismo, as percentagens de pessoas sem nível concluído aumenta com a idade: entre os maiores de 60 anos estas percentagens chegam até 77.2% entre os homens e a 95.6% entre as mulheres. Ainda que os jovens tenham um maior nível educacional do que as pessoas mais velhas, as percentagens respectivas são baixas: entre os jovens de 15 a 19 anos de idade, mais de metade não tem nenhuma escolaridade. Entre as pessoas com alguma instrução, a vasta maioria tem apenas o Ensino Primário. A percentagem de pessoas com níveis superiores é extremamente baixa. De acordo com o estudo apresentado, impõe-se a necessidade de um projecto que vise contribuir para inverter o cenário educacional acima exposto, nesta medida a Opis, com a colaboração do Instituto Nacional de Estatística e da Universidade Eduardo Mondlane, identificou as carências mais prementes e as respectivas vulnerabilidades da estrutura populacional no quadro educacional vigente, procedendo à elaboração de um projecto que possa contribuir para uma dinamização e valorização da mesma.

Resultados esperados a curto, médio e longo prazos?
A Opis perspectiva: a) aumentar a taxa percentual do nível educacional; b) contribuir para o aumento da taxa de sucesso e aproveitamento escolar; c) estimular a população estudantil no acesso ao ensino superior; d) possibilitar maior e melhor capacidade de aquisição de conhecimentos elevando os índices de exigência; e) entende-se indispensável a aquisição, por parte dos estudantes, de conhecimentos e competências técnicas na utilização do computador e multimédia; f) reconhecer a importância do computador na sociedade em geral; g) sensibilizar para a utilização das novas tecnologias da informação e comunicação; h) identificar os novos desafios da sociedade de informação; i) investir na qualificação do corpo docente.

Como se processa o financiamento da Opis?
Através de donativos, campanhas locais para angariação de fundos, quotas dos sócios, venda de material, subsídios, patrocínios, Comissão Europeia, Organismos das Nações Unidas e Instituições Oficiais de Cooperação Portuguesas e de outros países.


Apoiar, Ajudar, Divulgar, Dinamizar, Recolher, Promover, Cooperar, Contribuir, Estimular, Colaborar, Produzir e Fomentar constituem premissas-base da Opis...
A Opis pretende contribuir para a criação de uma consciência de solidariedade mundial, elaborar e ajudar a concretizar projectos de desenvolvimento e de promoção humana, social e cultural, particularmente aqueles que tenham como destinatários as crianças e os jovens dos Países em Vias de Desenvolvimento.

Projectos em curso?
Desenvolvemos, até à data, um Projecto de Apoio Extra Curricular para crianças e jovens em idade escolar com dificuldades de aprendizagem, com acesso gratuito às Novas Tecnologias da Informação e Comunicação (NTIC); um Centro de Formação Profissional agregando diferentes sectores (educação sexual, prevenção ao HIV, formação pedagógica de professores, Jornalismo em Análise) e criámos um Centro de Documentação, sendo igualmente um fórum de investigação cientifica, e constituindo-se como um espaço de debates, seminários e intercâmbio científico-cultural.

Organismos com quem a Opis colabora em Portugal e em Moçambique?
A OPIS, decorrente de maior actividade em Moçambique, foi estabelecendo parcerias e protocolos sobretudo com entidades moçambicanas, nomeadamente: Universidade Eduardo Mondlane, Instituto Nacional de Estatística, Ministério da Educação, Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação e, em Portugal, com o Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD), com a Universidade do Algarve, bem como outras parcerias que se encontram em avaliação, de que é exemplo o Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE).

Qual tem sido a receptividade de Moçambique face à ONG?
Tem-se verificado uma boa receptividade em relação ao trabalho no terreno levado a pela OPIS ao nível do sector público bem como do sector privado, prova disso foram os inúmeros contactos da comunicação social, fui convidada pela televisão e pela rádio para uma entrevista visando promover e incentivar a continuidade do nosso trabalho. A 19 de Outubro dei, inclusive, uma entrevista à STV durante a qual alertei para a urgência no combate ao insucesso escolar e requalificação de recursos através da formação profissional.

Vulnerabilidades e/ou constrangimentos da Opis?
Prendem-se, sobretudo, com as necessidades de abertura de linhas de financiamento para a implementação e respectiva exequibilidade dos projectos. É urgente unir esforços, quer a nível governamental, quer ao nível da sociedade civil, para que as pequenas ONG`s se assumam, de vez, como verdadeiros actores no sector da cooperação e desenvolvimento.

Projectos Futuros ou em curso?
A Opis entende como prioridade estratégica a valorização dos recursos humanos e das competências como um instrumento de suporte à afirmação dos mesmos no mercado de trabalho e cenário educacional moçambicano, ao qual a formação profissional procurará dar resposta. Ainda no quadro desta prioridade estratégica a qualificação profissional deve responder a dois desafios-chave: 1º) a antecipação de qualificações que desempenhem um papel de atracção de novos projectos educacionais, 2º) a qualificação de activos incluindo a reconversão de competências. No âmbito da formação profissional e decorrente das necessidades de requalificação de recursos iremos apostar, no início de 2006, na criação de um Centro de Investigação e Formação Profissional para Jornalistas (CIFPJ), em Moçambique, isto é, iremos apostar na “Sociedade da Informação” já que esta constitui um desígnio colectivo, a alavanca das capacidades nacionais e o alicerce da democracia. Urge, por isso, apostar na construção da mesma, porquê? Primeiro: O jornalismo produz e reproduz conhecimentos úteis para as sociedades e seus indivíduos, Segundo: Os jornalistas são os historiadores do quotidiano; Terceiro: A liberdade de imprensa constitui hoje um critério de boa governação nas sociedades ditas modernas.


CIFPJ: objectivos, áreas de formação?
O CIFPJ terá como objectivo primordial contribuir para a melhoria da qualidade da informação difundida nos meios de comunicação social de âmbito local, regional e nacional, por conseguinte, visa: a) possibilitar o aperfeiçoamento e a requalificação de profissionais e colaboradores regulares, b) promover a adaptação a novas áreas da comunicação social (Internet), c) facilitar a aquisição de competências profissionais mais alargadas e c) apoiar o crescimento, aperfeiçoamento e modernização das empresas do sector. Realizar-se-ão “cursos à medida” que visam adequar a formação proposta ou solicitada às necessidades concretas das pequenas e médias empresas do sector. A acção do CIFPJ envolverá palestras, conferências, colóquios e seminários para profissionais que sintam necessidade de se actualizar, tais como: professores, técnicos da administração pública e de entidades privadas. Para já, e numa primeira fase, apostaremos na Imprensa Escrita e prevê-se que os ateliers tenham uma duração aproximada de três meses, na sua totalidade. Em suma, pretende-se que o CIFPJ seja uma referência da formação profissional na área da comunicação social e do jornalismo moçambicanos.

No âmbito do CIFPJ, que apelos gostaria de fazer às entidades portuguesas competentes, ligadas ao sector da Comunicação Social, em termos de cooperação?
Nesta fase de elaboração do projecto, torna-se imperioso a caracterização e identificação das vulnerabilidades do sector no terreno, é desta forma que gostaria de deixar o meu apelo às várias entidades portuguesas competentes e ligadas ao sector da comunicação social a encetarem parcerias ou protocolos com a Opis no sentido de se implementar este Projecto que visa uma cooperação directa com os profissionais do jornalismo que se encontram em diferentes territórios mas integram um espaço comunitário Lusófono, em que se escreve e em que se fala em português! Vamos apoiar este projecto pois assim estamos a contribuir para que Portugal reforce o seu papel e lugar na continuidade da construção da Lusofonia.

OPIS: novidades para 2006?
Em Portugal encetamos, a partir de Dezembro, a campanha “Um livro, um sorriso”, cujo objectivo é congregar o maior número de livros, temáticos, romances, histórias infantis, manuais escolares, dicionários, literatura portuguesa e/ou estrangeira para a construção de uma biblioteca em Maputo de livre acesso às crianças, jovens e adultos, estimulando o prazer pela leitura, respondendo à dificuldade de pesquisa e apoio curricular. Contribua com um livro e faça uma criança sorrir.