segunda-feira, abril 25, 2005



Caros leitores, tal como podem verificar… tive alguma dificuldade em atribuir título a este texto, porquê? Simples… vários foram os que me vieram à cabeça numa questão de milésimos de segundo: “Jornalismo em escalada descendente”, “Jornalismo português: a vergonha da Europa”, “Jornalistas portugueses à beira de um ataque de nervos”, “Jornalismo a quanto obrigas”, “Jornalismo ou Clientelismo?”, “Jornalismo: bóia de salvação para filhos e enteados” e poderia acrescentar outros tantos mas cujo conteúdo remete para a mesma realidade decadente e repugnante! Hoje, em pleno século XXI, um aluno recém-formado em Comunicação Social – vertente jornalismo – tem que ter muita FÉ! Em quê? Pois é… devem estar a pensar na resposta que racionalmente seria a mais correcta: arranjar um bom emprego, com possibilidades de ascensão na carreira, uma remuneração capaz de suprir as despesas mensais e, acima de tudo, que permitisse alimentar um sentimento de realização profissional na área que escolhemos. Contudo, enganam-se… a resposta é outra e assemelha-se a um osso bem duro de roer: actualmente, e tendo em conta o nº elevadíssimo de desempregados e a incapacidade do governo português resolver esta questão a curto prazo, urge ter FÉ em entrar para um Reality Show, de que são exemplos: outrora, o Big Brother e, mais recentemente, a Quinta das Celebridades. Qualquer telespectador assíduo e minimamente inteligente consegue facilmente perceber que uma licenciatura neste ramo de actividade «jornalismo» não serve absolutamente para nada em Portugal, a não ser para engrossar as listas do Instituto de Emprego e Formação Profissional! Porquê? Ora vejamos: o vencedor da 1ª edição do programa suprareferenciado, José Castelo Branco, foi desde logo contratado pela revista semanal TV7Dias para escrever uma crónica intitulada, salvo o erro. “Pérolas a Porcos”, na qual se debruçava sobre os acontecimentos mais relevantes da semana na Quinta e sobre os comportamentos mais ou menos adequados dos outros participantes, tecendo algumas críticas e, não raras vezes, dando elogios. De referir que nos dias que correm, meses após o terminus deste tão popular formato televisivo, o dito Conde continua a escrevê-la, bem como uma crónica no Jornal 24 Horas, às segundas e sextas-feiras. Pior, na dita revista de 20/04 a 26/04/2005, Castelo Branco entrevista Filipa Gonçalves, numa rubrica intitulada “As entrevistas do Conde”, num total de 3 páginas, que poderiam ser escritas por jornalistas experientes, isentos, imparciais, competentes, com provas dadas na imprensa escrita e rigorosos na aplicação das regras inerentes aos vários géneros jornalísticos, dos quais falarei mais à frente. Já para não falar do Programa Televisivo “Bon Chic”, cujo conteúdo não se enquadra nem num formato informativo nem num formato de entretenimento, parecendo mais uma “sopa dos pobres”, deixando qualquer jornalista entediado com o total desrespeito para com a ética deontológica.
Esta semana, numa entrevista ao programa diário da TVI “Você na TV”, apresentado por Cristina Ferreira e por Manuel Luís Goucha, o Conde regozija-se da sua nova profissão de jornalista e manda “beijinhos ternurentos” a Pedro Tadeu, director do 24 Horas, e a Jaques Rodriques do Grupo Impala. Ao que parece, esta estratégia de transformar, em poucos dias, personalidades VIP (Very Important Person) em jornalistas de trazer por casa produziu resultados animadores e aumentou exponencialmente as receitas destes OCS, razão pela qual todas as celebridades desta 2ª edição, sem excepção, foram convidadas a escrever crónicas para diversos mass-media nacionais! Alexandra Fernandes escreve também para a TV7Dias e os restantes espalham-se pelos outros OCS numa tentativa desesperada de se tornarem jornalistas a curto e médio prazo e, diga-se, sem qualquer formação na área. Exemplo disso são as “Confissões de Gonçalo da Câmara Pereira no Reino da Baracha” que esta semana ocupam duas páginas na TV7Dias. Mas… será que os conceitos de “Crónica”, “Artigo de Opinião” e “Entrevista” estão bem aplicados?
No Dicionário de Jornalismo, de Fernando Cascais, pode ler-se que Crónica “é uma peça (impressa ou audiovisual) que transmite a perspectiva pessoal do seu autor e cuja liberdade do tema deve apenas ser condicionado pelo seu interesse para os outros, isto é, a crónica é um texto personalizado mas o seu tema não é pessoal. É também a escrita jornalística de recorte mais literário, mas condicionada à clareza que o texto jornalístico deve sempre manter.” Quer o autor dizer com isto que cronista é um repórter que deve sempre, independentemente do género jornalístico a que se dedica, manter o rigor e seguir as normas aplicáveis. Ora, se atendermos à explicação, concluímos que nenhuma das características apontadas está presente nas “crónicas” publicadas por estas vedetas! Cascais também define Artigo: “Texto de opinião ou análise da responsabilidade de quem o assina. Incide geralmente sobre acontecimentos ou problemas com actualidade, sendo a defesa do ponto de vista do autor baseada em informação relevante. O termo «artigo» é igualmente utilizado com grande latitude, por vezes designando qualquer texto impresso numa publicação, independentemente do seu género específico. Colaborações de leitores ou textos opinativos de especialistas, os quais por vezes constituem um género específico (tribuna), podem enquadrar-se no conceito de artigo”. Volto a perguntar aos leitores: algum destes pressupostos está patente nestas crónicas? É óbvio que NÃO, dado não se tratar de especialistas em matéria alguma!
Conclusão: um médico pode exercer jornalismo, um advogado pode exercer jornalismo, um cozinheiro pode exercer jornalismo, um filósofo pode exercer jornalismo, um bombeiro pode exercer jornalismo, um modelo pode exercer jornalismo, um actor pode exercer jornalismo, um pedinte de rua pode exercer jornalismo, um político pode exercer jornalismo, pessoas com o 12º ano exercem jornalismo, enfim, qualquer coisa que mexa pode exercer jornalismo em Portugal! Contudo, meus Srs, o contrário não é verdade! Porquê? Porque temos um Sindicato incompetente, pouco activo - já para não dizer totalmente passivo -, clientelista, acéfalo, pouco ou nada preocupado com a falta de emprego dos jovens recém-formados e rigorosamente nada empenhado em fechar o sector aos profissionais da área e impor regras restritas quanto à elaboração de artigos de opinião por outsiders. Infelizmente e assim sendo, eu, Patrícia Mota Paula, TENHO VERGONHA DE SER JORNALISTA.