terça-feira, setembro 21, 2004

Tendências do Jornalismo contemporâneo

Mass-Media portugueses: terceiro mundistas?

Caros cibernautas, hoje trago-vos um tema que apesar de não constituir novidade representa, cada vez mais, um dilema cuja análise tem sido relegada para segundo plano... mas cuja importância merece a nossa atenção a bem das gerações vindouras. Pois é... aposto que está intrigado, curioso, confuso e não faz a mínima ideia do que estou a falar! É fácil concluir, à priori, que numa questão de segundos já lhe passaram mil e uma temáticas pela cabeça... dado o emaranhado de problemas que este país, ou melhor, este mundo globalizado enfrenta! Mas não se preocupe, estou prestes a desvendar a problemática que me traz hoje até vós: que função desempenham os órgãos de comunicação social? Benigna ou maligna? Interessada ou desinteressada? Pacífica ou problemática? Formadora ou desinformadora? São questões difíceis! Mas... há uma certeza: algo vai mal no jornalismo português!
Como jornalista defendo que os media devem constituir, simultaneamente, um «objecto de conhecimento» e um «auxiliar pedagógico» em matérias como história, filosofia, antropologia, ciências, geografia, política, etc... Contudo, emerge hoje uma preocupação social que nos remete para aquela que parece ser a verdadeira função dos Media: perpetuar o sensacionalismo e a dramatização dos factos, originando a desinformação dos consumidores. Infelizmente, a comunicação social transformou-se numa mercadoria, sujeita a mecanismos complexos e às regras do mercado, e que visa gerar numerosas e estáveis audiências. Posto isto... pergunto: contribuirão os Órgãos de Comunicação Social (OCS) para a valorização e consolidação daquilo a que chamamos «cultura nacional»? Eu diria que MUITO POUCO! Porquê? Bem... para responder a esta questão basta-me colocar outra não menos importante: O que é que constitui «notícia» nos dias que correm? A lista é longa, sobejamente conhecida e desoladora... mas vale a pena lembrá-la:

- Futebol (compra e venda de jogadores, custo das transacções, querelas entre treinadores e clubes);
O jornalista da TVI, José Magalhães, acabou de lançar o seu segundo livro, intitulado “Campeões Carago”. Ao que parece... o Futebol Clube do Porto (FCP) voltou a inspirar este profissional da comunicação social. No entanto, eu pergunto: será esta obra uma mais-valia literária para os portugueses?
- Criminalidade nas estradas portuguesas (proliferação dos acidentes de viação);
- Terrorismo Global (Al-Qaeda), exemplo: 11 de Setembro (EUA);
- Pedofilia (infindável novela Casa Pia);
- Racismo;
- Alcoolismo;
- Toxicodependência;
- Homossexualidade;
- Transsexualidade;
- Corrupção no aparelho de Estado;
- Pobreza/Miséria (Tragédias da vida real);
- Crescente degradação do meio ambiente (poluição, cataclismos, usurpação dos recursos naturais, espécies em vias de extinção, etc.);
- Desemprego Estrutural (incompetência do Instituto de Emprego e Formação Profissional);
- Insucesso escolar;
- Atraso na colocação de professores (concurso nacional 2004/2005);
- Liberalização, ou não, do Aborto;
- Liberalização, ou não, das drogas leves;
- Crescente taxa de Analfabetismo;
- Má preparação profissional/baixa qualificação dos quadros;
- Efeitos perversos da Clonagem;
- Contradições do modelo neoliberalista (Fosso Norte/Sul);
- Malefícios do Tabaco;
- Desvantagens das Telecomunicações, nomeadamente da Internet;
- Saúde/Doenças (SIDA, alergias, hepatite, etc.);
- Violência doméstica;
- Comportamento autocrático de alguns políticos;
- Maternidade na adolescência;
- Malefícios do Fast Food;
- Falta de meios para combater os incêndios que todos os anos devastam as florestas portuguesas;
- A compra de dois submarinos que ninguém sabe para que servem!;
- A moda do nosso JET SET bem como a total exposição da vida privada dos famosos (a que horas se levantam, o que comem às refeições, o que fazem no dia-a-dia, para que lado dormem, o que vestem, que festas frequentam, que problemas enfrentam, que tipo de amizades cultivam, que crenças mitigam, que ideais defendem, etc.)
O escritor Francisco Salgueiro acabou de lançar um livro onde fala de inúmeras pessoas conhecidas, nomeadamente Cinha Jardim que, segundo ele, “É, actualmente, a pessoa com mais protagonismo em Portugal e é simpática para toda a gente.”; Eu pergunto: Será que os portugueses, dada a crise que se instalou no nosso país em praticamente todos os sectores de actividade, estão preocupados com a Sra. Cinha Jardim?

- Futuras Telenovelas;
- Entre muitos outros temas...


Quando olhamos para a lista suprareferenciada, pensamos: em termos de diversidade, até nem estamos mal! Pois é... mas quantidade não é sinónimo de qualidade! A maioria destes temas são abordados, não do ponto de vista meramente informativo, mas sim com o objectivo de chocar audiências através de uma contra-informação que não respeita regras nem princípios deontológicos de qualquer espécie.
Esta semana, a TVI difundiu uma reportagem que se baseava em testar o nível de conhecimentos e/ou cultura geral dos nossos caloiros e, incompreensivelmente, a maioria dos portugueses ficou chocada com as imagens. Sinceramente não percebo a razão para tanto espanto! O jornalista colocou perguntas simples, de que são exemplo: Qual foi o primeiro rei de Portugal? Qual foi o primeiro Presidente da República Portuguesa? Qual é a capital de Moçambique? Qual o nome do Primeiro-ministro português? Quanto é 7 vezes 6? O que foi o Dia D? Em que ano se deu o 25 de Abril? Etc... Em cerca de 12 entrevistados, apenas um caloiro conseguiu responder correctamente à totalidade das perguntas! É óbvio que se as questões fossem outras: Com quem casou Fernanda Serrano? De que cor era o vestido de noiva da actriz Paula Neves? Data de estreia do programa “Quinta das Celebridades”? Quantas filhas tem Cinha Jardim? Últimas aventuras amorosas de Rita Mendes? Quando e onde foi a última festa do JET SET nacional? Etc.., tudo estaria simplificado visto que os portugueses são diariamente bombardeados (através da imprensa escrita, rádio e televisão) com este tipo de notícias cada vez mais submetidas à lógica do lucro!
Foi realmente uma reportagem chocante e avassaladora! No entanto, não constituiu para mim qualquer surpresa... talvez porque sou professora e lido directamente com estes jovens e porque sou jornalista e tenho contacto directo com a realidade comunicacional/jornalística: contam-se pelos dedos de uma mão os programas de carácter informativo e cultural existentes na Televisão ou na Rádio!
Assim sendo... deixo-vos com estas interrogações:

- Tendo em conta as temáticas suprareferenciadas e a ausência de uma verdadeira política de «educação para os media», como é possível esperar mais dos nossos jovens?
- Que ilusões andamos a cultivar?
- Que gerações estamos a educar?
- Com que sistemas andamos a compactuar?
- Estará o termo «auto-estradas da informação» correctamente aplicado ao jornalismo português?
- Como pode este «jornalismo de emoções» enriquecer a vida democrática?
- O que distingue o jornalismo português do jornalismo terceiro-mundista?
- Que atitudes devemos tomar para mudar o rumo dos acontecimentos?

Conclusão: Urge reflectir sobre os conteúdos comunicacionais inerentes a este «jornalismo de emoções» que se escuda no princípio puramente económico da adaptação da oferta às exigências do consumidor. “O homem que mordeu o cão”, “Big Brother”, “Vidas Reais” são exemplos de programas cujo conteúdo não tem qualquer interesse para a opinião pública portuguesa. Os consumidores, esses, são apenas meras bolas de ping-pong cuja trajectória cultural é delineada pela agenda dos mass-media.

Como nota de rodapé, deixo apenas uma ironia: ao que parece, o Parlamento português tem outras prioridades! Em vez de se preocupar com o caris da informação veiculada pelos media públicos, com o atraso na colocação dos professores, com a falta de médicos no interior do país, com o realojamento de famílias pobres, etc... tem estado, antes, preocupado com a entrada do barco do aborto em águas nacionais, ou melhor, com a proibição à entrada deste e com a transladação dos restos mortais de Manuel de Arriaga para o Panteão Nacional. Será isto normal?

Espero que este artigo seja do vosso agrado e contribua para a reflexão de todos nós! Obrigada.

Patrícia Mota Paula 20/09/2004

terça-feira, setembro 07, 2004

Caros leitores, peço imensa desculpa pela prolongada ausência mas inúmeros afazeres profissionais e académicos têm esgotado completamente o meu tempo útil. Tenho este blog há já alguns meses mas a verdade é que nunca me apresentei convenientemente. Chamo-me Patrícia Mota Paula, tenho 27 anos, sou licenciada em Ciências da Comunicação (vertente jornalismo), pós-graduada em Jornalismo Internacional e mestranda em Estudos Africanos pelo ISCTE. Aliás, foi exactamente no âmbito desta formação superior que me desloquei recentemente à Guiné-Bissau, pela segunda vez consecutiva, visando distribuir inquéritos, realizar entrevistas, recolher informações e obter documentação essencial à feitura da Tese Final, cujo tema foi já abordado em alguns dos meus textos anteriores. Contudo, para além desta tarefa (por si só trabalhosa, cansativa e stressante) tenho estado igualmente empenhada noutra missão imensamente ingrata: o Concurso Nacional de Professores que, por sua vez, tem sido um verdadeiro fiasco... tendo em conta os múltiplos erros que têm vindo a público através dos órgãos de comunicação social. E é exactamente este tema, amplamente difundido nos últimos meses, que me leva a dedicar hoje algum tempo ao meu blog, isto porque, considero imprescindível dar a conhecer a realidade desastrosa do nosso sistema educativo. Mas já agora vou contar a história desde o início porque, infelizmente, este é o Portugal que temos! Sou jornalista desde 1999, tirei esta licenciatura não por desejo de protagonismo (como a maioria dos jovens) mas sim por amor à carreira. Contudo, cedo percebi claramente que se trata de uma profissão sem futuro, na qual apenas vencem aqueles que se regem pela máxima: “não interessam os meios para atingir os fins” ou aqueles cujo factor "cunha” funciona ao mais alto nível. No mundo da comunicação social vale tudo! Os formados estão desempregados e apenas os filhos de ministros, os modelos, os artistas de teatro, os músicos, ou seja, o jet-set conseguem penetrar nesta espessa rede de interdependências que supõe uma constante troca de favores! Não interessa a qualidade mas sim o tipo de cunha envolvida! Se enviamos um curriculum vitae para órgãos públicos a resposta é a seguinte: só através de concurso! Eu pergunto: que concursos? Como, quando e onde é que estes têm lugar? Leio jornais todos os dias, oiço rádio e vejo telejornais, consulto o Diário da República de quando em quando e nunca visualizei qualquer referência a estes concursos fantasma! E quando os há... já estão escolhidas as pessoas que vão ocupar os lugares, prova disso mesmo são os números de telefone e fax dispensados aos candidatos, os quais não existem nem nunca existiram! Tudo para inglês ver! Assim sendo... os problemas começaram logo aquando do terminus da licenciatura: estágios não remunerados, vínculos precários com pagamentos a recibos verdes, órgãos de comunicação social falidos que deixam de pagar aos jornalistas, editores intransigentes e mal educados que ingressaram na profissão há muitos anos e, como não são formados, tratam os jovens jornalistas abaixo de cão... tudo com medo que lhes tiremos o lugar! Em suma, um mundo caracterizado pelo “salve-se quem puder” onde não existem laços de cooperação, solidariedade, companheirismo, coleguismo e muito menos bom senso! Tudo isto levou a que eu tirasse duas breves conclusões, primeira: não há futuro no jornalismo mesquinho que se faz em Portugal! Segunda: há que enveredar por outra área profissional: a docência! Hoje, passados três anos, questiono-me: será o professorado uma via com futuro? Resposta: Não sei! Continuo a sentir-me como uma verdadeira bola de ping-pong inútil que jamais terá lugar na sociedade portuguesa contemporânea! Dada a minha apetência para a docência, decidi concorrer este ano, pela primeira vez, ao Concurso Nacional de Professores relativo ao ano escolar 2004/2005 e, qual o meu espanto quando percebo que a confusão é ainda maior do que na área do jornalismo! Passo a explicar: aquando da publicação das primeiras listas, fiquei com o nº de ordem 2763 mas, como é do conhecimento geral, devido aos inúmeros erros existentes, esta lista foi anulada! Aquando da publicação das segundas listas fiquei excluída pelo código A042H (que remete para a não apresentação de documentação que comprove habilitações para a docência). No entanto, estes papéis sempre estiveram anexados à minha candidatura! Apresentei uma reclamação por escrito e no dia 31 de Agosto (data em que saíram as listas definitivas) o meu nome constava outra vez na lista de exclusões pelo mesmo motivo! Porque tenho alguns conhecimentos no Ministério da Educação, fui informada que estavam a tentar resolver alguns problemas na Av. 24 de Julho, onde prontamente me desloquei. Após duas horas de espera, a senhora que me atendeu disse: “Não percebo como é que estas situações podem acontecer, a sua reclamação foi aceite, foi dada como apta para leccionar, o seu nome aparece no meu computador como fazendo parte das listas mas... aparece igualmente na lista de excluídos, logo tem que apresentar outra reclamação hierárquica à senhora Ministra da Educação!” Conclusão: continuo à espera indefinidamente e sem qualquer esperança de ver o meu problema resolvido! Sendo certo que a Sra. Ministra pode levar entre 5 a 7 meses para responder às reclamações! Será isto normal?
Depois desta palhaçada toda, eu pergunto: Quantas pessoas já passaram à minha frente? Como podemos controlar este processo? Como é que um candidato que apresenta, desde o início, toda a documentação inerente ao processo é excluído desta forma indecente? Como pode um Ministério da Educação funcionar tão levianamente dando provas de uma enorme falta de respeito para com os cidadãos? Tendo em conta o desgaste psicológico de que tenho sido alvo, não tenho sequer capacidade para responder a este role de questões. Mais... duvido que o próprio Ministério saiba responder dada a incompetência que tem demonstrado em todo este processo moroso e dispendioso para os contribuintes! No entanto, a Senhora Ministra da Educação compareceu a semana passada na Assembleia da República para esclarecer os restantes deputados dizendo que a situação está totalmente controlada e que o concurso tinha sido um autêntico sucesso já que a maioria dos professores estavam colocados! Será esta uma piada de mau gosto, uma anedota seca ou esta senhora não tem a mínima noção daquilo que está a dizer? Com tanta gente competente neste país... porque estará a pasta da educação entregue a pessoas sem a mínima formação nesta área? No ar deixo outras questões: será este o tratamento que os professores portugueses merecem? Quando é que os responsáveis por estes erros imperdoáveis irão ser punidos? Até quando toleraremos ministros incompetentes?Quando é que Portugal se irá tornar um país civilizado, com um mercado de trabalho justo e equitativo para todos, sem sistemas de cunhas e com remunerações adequadas ao nível de vida que aqui de vive?
E relativamente à minha área de licenciatura eu pergunto: Quando é que o Sindicato dos Jornalistas vai começar a defender com unhas e dentes os nossos direitos como profissionais formados impedindo, deste forma, que pessoas sem qualquer formação académica nesta área exerçam a profissão? Quando é que serão proibídos os estágios não remunerados?
Na minha opinião, nada irá ser feito dada a incompetência deste órgão! É preciso ter coragem para “Tirar de cena quem não é de cena” e ao sindicato não convém, como é óbvio, chocar certas e determinadas facções da sociedade, melindrar grandes empresários ou por em causa outro tipo de considerações morais! Deixo aqui o meu profundo desagrado pela forma como as coisas funcionam neste país, tenho vergonha de ser portuguesa e tenho pena que o mundo do jornalismo esteja cada vez mais descredibilizado devido a programas como o Big Brother e outros... Os leitores desprezam a verdadeira notícia, o verdadeiro acontecimento, os verdadeiros factos e só se interessam pelas revistas cor-de-rosa que apenas falam da vida privada do jet-set! Será este o caminho para a sapiência? Obrigada pela vossa atenção.

Patrícia Mota Paula 07/09/2004